Esmola. Injustiça. Absurdo. Alunos (e pais) provenientes de escolas privadas tendem a pensar nas cotas como uma medida de assistencialismo barato, que apenas os prejudica e ajuda desinteressados. Ao observar os listões de vestibulares de todo o país e comparar resultados, constata-se facilmente que o caso é mais complexo do que parece, que a lei tem uma razão de ser. É fundamentada em deficiências da sociedade atual e busca reparar, também, erros de nossos antepassados.
O ensino público possui, de forma indubitável, um nível infinitamente aquém do pago. Não oferece suporte algum, tampouco uma educação de qualidade para que os estudantes tenham a chance de se igualar minimamente àqueles cuja vida é cheia de, pelo menos a princípio, irreconhecidas regalias.
Com frequência são expostos na mídia fatos que corroboram a veracidade desse duro cenário: alto índice de faltas dos docentes, ausência desditosa e provecta, também, dos discentes, precária e vergonhosa estrutura, roubo até de merenda escolar. Diante desse quadro, qual ser imparcial, de fato, poderia acreditar que não deve ser feita distinção a fim de, justamente, promover a mais ínfima nivelação entre os concorrentes?
É prudente afirmar que não há como fugir da marginalizada cota, seja ela explícita ou implícita, quer beneficie os usuários da educação "oferecida" pelo Governo, quer beneficie os que vêm de instituições privadas. Convido-nos a refletir com menos atropelo e mais sensatez sobre a situação. Fronte à inegável disparidade desses indivíduos, o privilégio do qual os "afortunados" acabam por desfrutar, a enorme probabilidade de atingirem um resultado superior também podem ser caracterizados como "cotas".
Há, ainda, quem defenda que a entrada de cotistas atrasaria os demais devido à falta de base que com estes sofrem. Só tenho um adjetivo em mente para designar esse ponto de vista: ridículo. Alguns não compreendem o que é viver em sociedade, o fato do nosso sistema ser capitalista (graças a Deus!) não anula a enorme importância de adotar uma visão ampla; preocupar-se com o outro ou, ao menos, tentar. O primeiro indício de que um cidadão é, genuinamente, cidadão (indivíduo que convive em sociedade, respeitando o próximo, cumprindo com suas obrigações) é a renúncia de determinadas prerrogativas em nome do ensejo daquele "coitadinho", de acordo com a visão hipócrita de muitos. Isso sim é ser nobre.
A ascensão de um em detrimento da oportunidade do outro vai estar sempre presente num mundo em que o que possui mais recursos financeiros é agraciado com uma formação infinitamente superior àquele que mora no morro e não goza de atividades dinâmicas, muito menos experiências como viagens e afins. É custoso para um jovem conseguir sair de uma família cuja miséria é hereditária, ultrapassando barreiras quase impérvias. Afinal, não é a toa que "todo camburão tem um pouco de navio negreiro".

Ótimo texto, Laura. Já vi um menino dizer que o pessoal que é beneficiado pelo sistema de cotas rouba a vaga de quem se esforça e estuda. Além de afirmar que os cotistas não se esforçam para ter sua vaga numa universidade federal, pois as cotas existem para isso, esse comentário foi absurdo.
ResponderExcluirVale a pena ler: http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1307720880_ARQUIVO_Confrontandoargumentos.pdf
Exato, Amanda! É esse tipo de pensamento individualista e equivocado o que contribui para a estagnação quanto ao crescimento daqueles que vivem à margem da sociedade. É, sim, necessário que tenhamos em mente o caráter paliativo das cotas; contudo, além de sofrer com preconceito e falta de oportunidades, os mais desfavorecidos não podem pagar por deficiências administrativas de um Governo de país emergente.
ExcluirJá diria meu amigo Nelson: as contas garantem que o POVO tenha acesso à Universidade PÚBLICA, e é assim que a Universidade PÚBLICA deve estar: cheia de POVO.
ResponderExcluirAs cotas não devem ser entendidas como uma medida adequada e permanente, mas paliativa. Ao implantar esse sistema o Governo assume o caráter ínfero da educação pública, no entanto, não corrobora para sua melhoria. O que a população precisa é de uma "real" educação, tão efetiva e eficaz como a oferecida por qualquer instituição privada. Algo que, tendo em vista a situação atual, chega a ser utópico. Em suma, tentar compensar a inferioridade do ensino público, garantindo a entrada dos prejudicados em universidades, ao passo que não se contribui em nada para por fim a desigualdade do ensino entre escolas públicas e privadas, chega a ser um insulto a quem depende do Governo. Além disso, a escola não nos oferece apenas uma base acadêmica mas também moral e ética.
ResponderExcluirÉ justamente o que eu falei na resposta a Amanda. Trata-se de uma medida paliativa, não poderia ser diferente. Mas a melhoria do ensino público é algo gradual, leva tempo e, com toda a certeza, não podemos deixar de fazer as devidas cobranças; como escrevi no texto, as "vítimas do destino" de hoje não podem pagar por isso tendo seu futuro condenado à mesma miséria amanhã. As últimas pessoas às quais deve-se atribuir a culpa por essa situação são as que passam por isso. A sociedade, como um todo, deve se mexer, tomando atitudes além de reclamar, principalmente aqueles que fazem parte da elite e possuem, de fato, poder para mudar certos cenários mas não o fazem justamente por indisposição de abdicar de certos privilégios (injustos). Não acho que seja um insulto, mas um ressarcimento abalizado.
ExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ExcluirAcredito que a implantação das cotas não é uma medida paliativa na visão do Governo, visto que não há nenhuma predisposição do mesmo em transformar a situação deplorável que o ensino público se encontra atualmente. É bem verdade que a sociedade deve se mobilizar e exigir seus direitos, algo que, infelizmente, não é posto em prática; no entanto, isso não justifica o absentismo do Governo. O que está sendo feito para melhorar, de fato, a educação pública?
ResponderExcluirA despeito da verdadeira intenção do Governo, não acho interessante falar baseado em "achismos". Atendo-me à sua pergunta, inúmeros resultados, hoje, constatam que houveram melhoras na educação pública, ao contrário do que se diz por aí. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mostra, por exemplo, que entre 2007 e 2009, o desempenho dos estudantes do período de início do ensino fundamental passou de 4,2 para 4,6 e no período final, subiu de 3,8 para 4; no ensino médio, de 3,5 para 3,6. No Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), a avaliação da educação no país foi de 368 para 401 pontos! Há de se reconhecer que essa ascensão é considerável... A cada 5 anos a qualidade do ensino cresce, em média, 25% - mais nas áreas com carências maiores e menos naquelas cujo desempenho se destaca, como manda a lógica. Concordo plenamente com você quando fala da má predisposição do Governo, da necessidade do aumento do ritmo dessas, a curto prazo, pequenas evoluções. Mas também é necessário ver o outro lado da moeda, não é só do Estado que se trata, sem falar que mais da metade das universidades federais já adotavam esse sistema. O texto, inclusive, não trata só das cotas sociais, e sim das ações afirmativas como um todo. Eu recomendo a leitura desse outro aqui: http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2008/07/sou-contra-poltica-de-cotas-no-paraso.html, ele é muito esclarecedor e, certamente, balança as ideias de qualquer "convictão" avesso às cotas. Também é altamente recomendável dar uma olhada nos comentários, são uma parte bem importante também, sanam bastantes dúvidas.
Excluir