quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O quebra-cabeça (quase) literal do feminismo


Dia desses minha irmã, no alto dos seus cinco anos de bisbilhotice e diabrura, sentou-se "linda e bela" na mesa de jantar - não na cadeira, na mesa mesmo. Ao ser repreendida por Cláudia, a mulher que a cuida, não demonstrou revolta ou sublevação, mas certo interesse pela sentença "Isso não é lugar pra pôr o bumbum!". 
Basta refletir brevemente acerca do tema para concluir que a afirmação é mais abrangente e suscetível a questionamentos do que, de cara, aparenta ser. 
Luíza, ao adquirir aquele novo conhecimento, ainda interessada pela incipiente informação, cedeu às recomendações e acomodou-se no sofá a fim de continuar a conversa, fazendo indagações e perguntando sempre o porquê. 
Será mesmo que há, de fato, lugares adequados e inadequados para se colocarem as hoje tão famosas (e desejadas) nádegas? O que dizer, então, das capas de revista masculina? Talvez o mundo precise de mais mulheres como essa "ama" para ponderar as atitudes de crianças de trinta anos. Talvez não. Pode ser que a liberdade esteja, justamente, aglutinada a essas ações implícitas de rebelião; nesse "faço o que quero com meu corpo". Mas e se for justamente o contrário? Fazer com que a imagem da mulher esteja sempre atrelada à satisfação incondicional do homem, em seus mais humilhantes e, por vezes, esdrúxulos desejos não me parece exatamente uma atividade que simbolize a quebra de correntes, representando um feminismo árdego e decidido. A independência sempre me pareceu algo tranquilo, superior. O processo de conquista é, sem dúvida, pedregoso! Sim, existem inúmeros paradigmas e preconceitos a serem dissolvidos. Porém, num país onde a Justiça está ao lado das mulheres, onde homens organizam-se contra a Lei Maria da Penha, tremem na base ao ver uma delegada "cabra da peste", onde reina o favorecimento da verdadeira contemporaneidade e há uma constante ascensão do "sexo frágil" a cargos de poder, não se pode afirmar que estamos em desvantagem, tampouco vociferar discursos pessimistas.
Mas essa situação não se repete em outros lugares... Temos muito, mas muito a conquistar - as muçulmanas que o digam, ou que não o digam. A herança do domínio masculino na sociedade perpetua comportamentos machistas que advêm de todos os lados, inclusive do feminino - algo inegável. Contudo, o que não podemos refutar, também, é a impotência da mulher fronte a muitos absurdos que ainda a acomete - mesmo que tente reagir -, como preceitos misóginos aplicados à lei no Oriente e ações que têm como fim minimizar o papel político das mulheres, o que vai desde um malicioso risinho a um claro xingamento.
Há, ainda, aqueles que se apoiam na ilusão de que Deus não teria demonstrado a insigne representatividade da mulher no mundo através da vida de Jesus e o teria feito caso não estivéssemos, de fato, predestinadas a obedecer e ocupar, sempre, o segundo plano. Ou seja, a igualdade de gêneros não é da vontade divina. Em minha singela opinião, essa teoria é, no mínimo, estranha. Não estaria "Ele" mais do que atestando a importância da mulher facultando a ela, e somente a ela, a capacidade de conceber um indivíduo? Vejo essa habilitação como a instância máxima da soberania, do prestígio de alguém.
Mas, afinal, o que é ter uma conduta feminista? As sufragistas do século XIX teriam orgulho de como seu legado está sendo transmitido pelxs adeptxs da causa?
Não tenho certeza das respostas. Mas existe algo sobre o qual detenho absoluta convicção: a avença sempre traz benefícios. O velho e regresso maniqueísmo sexista vem acompanhado de pensamentos obsoletos, desditosas consequências, angústias infindáveis; e isso é negativo para ambos os sexos. Qualquer vertente da segregação social impõe danos irreparáveis à sociedade. É até afligidor pensar que esse cenário de separatismo poderia ser modificado agora, se todos assim desejassem. A chave das conciliações reside no reconhecimento de nossos próprios erros e nas honestas tentativas de não cometê-los mais, não em descriteriosas imprecações sem vestígio de prudência ou ínfima culpa. 
Clamo pelo abraço coletivo, pela empatia e compreensão de que todos, mulheres e homens, vivemos numa corda bamba: se você tentar provocar a queda do outro, será, no mínimo, afetado pelo balanço da mesma.

Links relacionados:
http://whothehelliscely.wordpress.com/2010/12/09/separatistas-sao-os-homens/
http://kathmanduk2.wordpress.com/
http://repositorio.bce.unb.br/bitstream/10482/11460/1/2012_DeniseFerreiraCostaCruz.pdf
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ain%27t_I_a_Woman%3F
https://www.facebook.com/FeminismoSemDemagogia

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Cotas: a atenuação do egocentrismo


Esmola. Injustiça. Absurdo. Alunos (e pais) provenientes de escolas privadas tendem a pensar nas cotas como uma medida de assistencialismo barato, que apenas os prejudica e ajuda desinteressados. Ao observar os listões de vestibulares de todo o país e comparar resultados, constata-se facilmente que o caso é mais complexo do que parece, que a lei tem uma razão de ser. É fundamentada em deficiências da sociedade atual e busca reparar, também, erros de nossos antepassados.
O ensino público possui, de forma indubitável, um nível infinitamente aquém do pago. Não oferece suporte algum, tampouco uma educação de qualidade para que os estudantes tenham a chance de se igualar minimamente àqueles cuja vida é cheia de, pelo menos a princípio, irreconhecidas regalias.
Com frequência são expostos na mídia fatos que corroboram a veracidade desse duro cenário: alto índice de faltas dos docentes, ausência desditosa e provecta, também, dos discentes, precária e vergonhosa estrutura, roubo até de merenda escolar. Diante desse quadro, qual ser imparcial, de fato, poderia acreditar que não deve ser feita distinção a fim de, justamente, promover a mais ínfima nivelação entre os concorrentes?
É prudente afirmar que não há como fugir da marginalizada cota, seja ela explícita ou implícita, quer beneficie os usuários da educação "oferecida" pelo Governo, quer beneficie os que vêm de instituições privadas. Convido-nos a refletir com menos atropelo e mais sensatez sobre a situação. Fronte à inegável disparidade desses indivíduos, o privilégio do qual os "afortunados" acabam por desfrutar, a enorme probabilidade de atingirem um resultado superior também podem ser caracterizados como "cotas".
Há, ainda, quem defenda que a entrada de cotistas atrasaria os demais devido à falta de base que com estes sofrem. Só tenho um adjetivo em mente para designar esse ponto de vista: ridículo. Alguns não compreendem o que é viver em sociedade, o fato do nosso sistema ser capitalista (graças a Deus!) não anula a enorme importância de adotar uma visão ampla; preocupar-se com o outro ou, ao menos, tentar. O primeiro indício de que um cidadão é, genuinamente, cidadão (indivíduo que convive em sociedade, respeitando o próximo, cumprindo com suas obrigações) é a renúncia de determinadas prerrogativas em nome do ensejo daquele "coitadinho", de acordo com a visão hipócrita de muitos. Isso sim é ser nobre.
A ascensão de um em detrimento da oportunidade do outro vai estar sempre presente num mundo em que o que possui mais recursos financeiros é agraciado com uma formação infinitamente superior àquele que mora no morro e não goza de atividades dinâmicas, muito menos experiências como viagens e afins. É custoso para um jovem conseguir sair de uma família cuja miséria é hereditária, ultrapassando barreiras quase impérvias. Afinal, não é a toa que "todo camburão tem um pouco de navio negreiro".

sábado, 19 de janeiro de 2013

(Pseudo) Chevismo


Além de ignorância, o que faz um indivíduo adorar a Che Guevara? Depois de muito meditar sobre o assunto, cheguei à conclusão de que há, sim, considerando a natureza humana, fundamento para tal. Reitero que não me refiro aos desinformados, àqueles que nem sequer suspeitam que o agente estigmatizador da boina perseguiu iracundamente homossexuais, fez piada antes de atirar num garoto de doze anos, repreendeu e censurou de modo árdego todas as manifestações artísticas que julgasse "atingir" seu governo (não o socialismo, por ideologia, orgulho, mas seu governo) ou que, com a mais inacreditável ferocidade, submeteu a própria Cuba e todos os seus habitantes ao perigo de morte porque, logicamente, provocar um holocausto nos Estados Unidos era mais importante - ah, e é claro que ele se certificou de que ficaria seguro de qualquer ataque! O único jeito de chevistas tentarem driblar essas acusações é alegando serem falsas - clichê, eu sei. Mas quem estuda um pouco a História, tem conhecimento do que é uma pesquisa, logo descarta essa hipótese, que na verdade é desculpa esfarrapada, e esfarrapou-se tanto que sumiu às vistas de indivíduos com o mínimo de senso crítico. A energia que leva os perniciosos a perorar com insistência a favor de seus interesses e da imagem do "santo assassino", a atirar objurgações na direção de quem não aquiescer com pacifismo é bem diferente de fé no regime comunista, forte admiração pelo legado dos líderes da Revolução Cubana. Fanatismo, sim. Mas por outras cositas... Poder, dinheiro. É o puro racionalismo que leva os (relativamente) espertos a optarem por um sistema cujo absolutismo impera, que permite disparates em favor da manutenção de suas, e apenas suas, ideias. Não é à toa que Fidel gritava aos quatro cantos do mundo ser capitalista e, após o golpe militar, deu o ultimato: os marxistas-lenistas ficam, os outros... Ai dos outros! Governar quando se tem poder ilimitado é muito menos arduoso - para quem o faz, que fique bem claro. O subterfúgio agora é a essência teórica da coisa, "ditadura do proletariado", todos felizes e satisfeitos porque a igualdade social reina sob um grande arco-íris de luz. Não, pera... Alguém já viu isso? O significado da palavra "utopia" é bastante claro. Enquanto a varinha mágica não chega para transformar o imaginário em realidade, vamos fugindo desses espúrios lobos em pele de Chapeuzinho Vermelho.


PS.: Antes sair questionando a veracidade dos fatos citados, dê uma olhada nas referências!
1. Emilio Bejel, Gay Cuban Nation, The University of Chicago Press, 2001.
2. Leandro Narloch e Duda Teixeira, Guia Politicamente Incorreto da América Latina, LeYa, 2011.
3. Che Guevara, Textos Políticos, Global, 2009.
4. Jorge Castañeda, páginas 300/302.